domingo, 27 de julho de 2008

A viagem

Arrumar mala sempre é um troço chato. Eu evito fazer isso ao máximo, por isso na maioria das vezes deixo para enfiar as coisas na mala super em cima da hora. É o caso de hoje. Às 8:30 da noite sairei daqui da Casa de Huéspedes rumo à rodoviaria onde pegarei o ônibus rumo à Cidade do México, e só agora que eu começei a separar meus trapos. Trata-se de um mal necessário. Viajar é uma das melhores coisas da vida, viajar é maravilhoso, pena que para viajar é preciso arrumar as malas. Se desse para viajar sem arrumar as malas, viajar seria melhor ainda.

Estou contente porque vou visitar a Cidade do México pela terceira vez, sendo que dessa vez vou ficar mais tempo (15 dias). Mas, o que me deixa mais contente ainda é que no dia 4 de agosto eu vou me encontrar com a Thata lá e já falta bem pouquinho para esse dia. O roteiro da Cidade do México já está quase fechado, falta agora começar o das outras cidades que vamos conhecer (Puebla, Oaxaca, as praias de Oaxaca, etc...) O que não falta são lugares fantásticos para se conhecer nesse país.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Cavadores musicais

Em 2003, quando estive viajando pelo Chile, fiquei surpreso em saber que um grupo brasileiro do qual eu nunca tinha ouvido falar era o que mais se ouvia no país, era a absoluta sensação do momento. Tocava nas rádios sem parar, o grupo toda hora estava na televisão, aparecia em programas de auditório, em programas de entrevistas, em revistas de fofoca, já tinham virado bonequinhos e conquistado diversos públicos, sobretudo o infantil.

O grupo em questão se chamava Axé Bahia e na verdade de baiano ele não tinha nada. A banda era composta por dançarinos e dançarinas do interior de São Paulo que foram para o Chile com o objetivo de encher o bolso de bufunfa. Depois eu descobri que eu nãoera o único brasileiro que desconhecia o Axé Bahia. O grupo nunca tinha tocado no Brasil. Ele foi criado, construido e armado para o mercado chileno. Usando todo o arsenal simbólico, a poesia das letras de duplo sentido, a iconografia e as coreografias sofisticadas difundidas pelo Axé, o grupo paulista-baiano-chileno foi como um acarajé cozinhado na Patagônia. Um produto ¨nacional¨ produzido e consumido no exterior.

Trata-se de uma lógica bastante razoável: um produto que dá dinheiro em um país também pode dar em outro, com a vantagem de que nesse outro país o produto é escasso, raro e exótico. Não há concorrência... O sucesso é garantido. A garantia soy yo.

Março deste ano, Guadalajara, México. Estava eu com o Alan no Festival do dia da música. Tinham sido montados ao longo da Avenida Chapultepec vários palcos, para cada palco estavam programadas 12 atrações musicais. A gente tinha marcado com um pessoal às 10 num bar e era umas 8. Como tava cedo a gente decidiu dar um rolé e ver o que estava rolando em cada palco. A gente viu o primeiro palco, o segundo, tudo muito paradão. Chegando no terceiro, a coisa estava movimentada, porém, o público não dançava. Era uma banda de Axé.

O público assistia tudo aquilo com uma atenção tremenda. Parecia que estavam vendo uma coisa do outro mundo. Eu, por outras razões, também estava começando a achar o mesmo. O vocalista, claro, era brasileiro. O dançarino negão e a mulata também. Mas, as três outras dançarinas e os músicos eram mais mexicanos que Cantinflas. As mexicanas rebolantes eram gostosas e tinham aprendido bem a dançar na boquinha da garrafa. Deu para ver que elas fizeram um treinamento intensivo. Tudo bem que a mulata brasileira era melhor, mas as suas alunas estavam dando conta do recado. Mas, os músicos... Nunca tinha ouvido um Axé ser tão mal tocado em toda a minha vida. Parecia que os músicos estavam brigando entre si. Em um outro momento parecia um campeonato, um músico querendo chegar primeiro que o outro.

Terminado o show, a minha curiosidade estava falando alto. Fui para perto do palco e vi que os que mais atrairam admiradores foram o negão e a mulata. Havia uma fila enorme de adolescentes para tirar foto ao lado do negão e uma multidão de marmanjos pegando autógrafos da mulata. Após esse alvoroço, fui falar com o vocalista. Ele me disse que era do interior paulista, que estava morando há sete anos em Guadalajara e há 12 no México. Me disse que quando chegou no país fazia parte de uma dupla sertaneja, depois fundou um conjunto de forró, de lambada (mesmo já fora de moda) e agora está com essa banda de Axé. Fiquei sabendo que no final dos anos 80, começo dos 90 (época de ouro da lambada), ela foi proibida no México. Vai ver, ela foi liberada quando a moda acabou. Pedi a ele um cartão do grupo, ele me deu e foi embora. Quando fui ler o cartaão vi que o grupo se chamava Buzeta do Brasil (buceta com Z).

Mais um artigo de exportação.

A cavaçao nao só é universal, como também, musical.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Mais Artaud

Continuo imerso nas leituras de e sobre Artaud. Estou lendo tudo que encontro relacionado ao genial e único dramaturgo francês. Ele é um dos elementos chave da minha dissertação de mestrado pois eu o posiciono como um dos principais elos, como uma das principais pontes entre Glauber e Jodorowsky. De Artaud me interessa os seus textos do período surrealista (1924-1925): a sua ação na Central de Pesquisas Surrealistas, O pesa nervos , o manifesto de 27 de janeiro de 1925 ( postado por mim há uns dias atrás) e todos os documentos presentes em Carta aos poderes.

Me interessa a fase de divergências e a sua posterior expulsão do surrealismo (1926-1928). André Breton se achando o dono da marca ¨surrealismo¨ se achou no direito de expulsar algumas pessoas do grupo. Pessoas que construiram e fizeram o surrealismo com ele. Mas, era ele que decidia quem ia embora e quem ficava no movimento. Era ele que cortava as cabeças e tirava as pessoas da lista. Muito autoritário e arrogante esse Breton. Sou muito mais Artaud.

Por fim, a sua fase fundamental: (1935-1936) que comporta a escrita de O teatro e seu duplo e a sua reveladora e fantástica viagem ao México. Essa é a fase central para a minha pesquisa. Indo no embalo, abaixo segue trechos da nota de Andralis e Pellegrini.




Nota de Juan Andralis e Mario Pellegrini para o livro ARTAUD, Antonin. Carta a los poderes. Buenos Aires: Editorial Argonauta, 2003, pp. 47-49.


En 1920, a la edad de 24 años, Antonin Artaud llega a París con la intención de consagrarse al teatro. Se vincula entonces con Charles Dullin que acaba de fundar el ¨Théâtre de l Atelier¨ , participando como actor, decorador y realizador, al mismo tiempo que se interesa en las actividades del grupo de poetas nucleados en torno de la revista ¨Littérature¨ - germen del futuro grupo surrealista - , donde el insidioso propósito del título de la publicación encubre, como antifrase, un operativo de gran envergadura lanzado sobre el lenguaje. En 1923, en el atelier de André Masson, Artaud entra en contacto con Robert Desnos, Michel Leiris y Joan Miró, quienes poco tiempo más tarde lo presentan a André Breton y al grupo surrealista que acaba de organizarse alrededor del Primer Manifiesto. Es la época de la aparición de ¨La Revolución Surrealista¨, órgano del movimiento. Adhiere inmediatamente y se convierte en uno de los apasionados portavoces de la ideología: ¨ A pesar del poco tiempo transcurrido desde que Artaud se había unido a nosotros, nadie, como él, supo entregarse tan espontáneamente al servicio de la causa surrealista... Lo poseía una especie de furor que no perdonaba, por así decir, ninguna de las instituciones humanas, pero que podía, ocasionalmente, resolverse en un estallido de risa por el que pasaba todo el desafío de la juventud. No sorprende que este furor, por el enorme poder de contagio que poseía, haya influido profundamente en la trayectoria surrealista... (André Breton, ¨Entretiens¨, Gallimard, 1952).

A comienzos del año 1925, el grupo funda una Central de Investigaciones Surrealistas, cuyo objetivo inicial es ¨recoger todos los datos posibles en lo que concierne a las formas que puede adoptar la actividad inconsciente del espíritu¨. Una proclama, conocida como ¨ Declaración del 27 de enero de 1925¨, que incluimos en este volumen, aparece firmada por todos los miembros del grupo , su redacción, en realidad, se debe íntegramente a Artaud. Poco después, éste asume con plenos poderes la dirección de la Central de Investigaciones Surrealistas y se esfuerza por convertirla en un centro de ¨reordenamiento¨ de la vida.

¨El surrealismo, más que creencias, registra un cierto orden de repulsiones. Es ante todo un estado de espíritu. No proporciona recetas¨. El grupo le confía entonces la dirección del no 3 de ¨La Revolución Surrealista¨, que hasta ese momento estaba a cargo de Péret y Naville. La revista aparece con una portada desafiante:
¨ 1925 – FIN DE LA ERA CRISTIANA¨.

Artaud toma la iniciativa de redactar la mayor parte de los textos que se publican en ese número, dando un giro inesperado al tono de la publicación. ¨Aquí el lenguaje se desprende de todo lo que podía darle un carácter ornamental, se sustrae a la ¨ola de los sueños¨ de la que habló Aragón, y surge templado y resplandeciente, pero resplandeciente a la manera de un arma...¨ (Breton, op.cit).

Sus textos, impregnados de un abierto ardor insurreccional, están redactados en forma de cartas abiertas y dirigidos contra aquellas instituciones o sus representantes frente a los cuales el surrealismo comienza a organizar ya su clamor de protesta. De allí que hayamos creído justificado agruparlos bajo el título general ¨Carta a los Poderes¨.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Últimos filmes vistos

Adorei o filme do Wong Kar Wai, realmente muito bom, indescritível. E como eu vi na véspera do meu aniversário, que foi ontem, o filme se transformou em um autêntico presente. Foi por isso, aliás, que eu não postei nada ontem. O dia foi muito cheio. Primeiro acordei às 8 horas da manhã com a minha mãe me chamando pelo SKYPE. Depois falei com a minha vó, que estava do lado da minha mãe, claro. Falei com a minha tia e por último com a Thata.

Terminadas as conversas, me encontrei com uns amigos e rumamos para o El Negro encher a pança e tomar umas chelas. Recomendo o restaurante, muito bom.

Hoje, revi o Cronemberg e confirmei a minha adoção ao filme.

sábado, 19 de julho de 2008

Noches Púrpuras


Vou aproveitar que o Cineforo está fazendo uma retrospectiva do ¨melhor¨ que foi exibido no circuito cinematogáfico de Guadalajara nesse primeiro semestre de 2008, para ver o My Blueberry Niggths / Noches Púrpuras do Wong Kar Wai, que eu perdi quando entrou em cartaz. Nessa retrospectiva também vai passar o último do Cronenberg, Eastern Promises / Promesas Peligrosas ( esse eu vi, esse eu não poderia perder) e o mexicano Párpados Azules , que é bastante interessante.

Avassaladoras ou Irresistibles?

No post abaixo eu tinha dito que o título espanhol de Avassaladoras era Devoradoras de Hombres. Está errado, o verdadeiro nome desse filme em espanhol é: Irresistibles. Apesar de não ser verdadeiro, eu acho o título que eu tinha dado primeiro melhor. Agora, da onde que eu tirei esse título? Sei lá, eu devo estar vendo muito filme mexicano da Época de oro.

Nota sobre o circuito exibidor mexicano

No Rio eu morava praticamente ao lado do Estação Botafogo, aqui em Guadalajara estou morando agora há poucos minutos do Cineforo , o único ¨cinema de arte¨ ou cinema de repertório ¨alternativo¨ da cidade. Fora esse cinema, que pertence à Universidade de Guadalajara, o circuito exibidor da cidade é praticamente dominado pela rede Cinépolis. Trata-se de um quase monopólio. Um amigo meu me disse que isso acontece mais aqui em Guadalajara ( a segunda maior metrópole do país) , em Monterrey ( a terceira) e em algumas outras capitais e estados improtantes. Só na Cidade do México, segundo ele, que a poderosa empresa atuaria sob o peso da concorrência, entre elas, o Cinemark. Parece que os propietários da rede Cinépolis, que também tem salas espalhadas pela Guatemala, Costa Rica, El Salvador, Panamá e Colombia, são mexicanos. Mas isso não muda absolutamente nada. Por acaso o grupo Seviriano Ribeiro também nao é brasileiro? A lógica empresarial é absolutamente a mesma, sendo os propietários das redes exibidoras americanos ou brasileiros ou mexicanos. Trata-se de um negócio e eles não querem perder dineiro ( por acaso alguém quer?) e ponto final.


Mas que é chato não ter mais espaços para outros tipos de cinema, isso é. E o circuito para esse "outro" cinema é aqui muito mais pobre que o do Rio. E como acontece também em outros países, tudo que não é cinema americano é incluido no rótulo "cinema de arte". Ou seja, o cinema comercial produzido em outros cantos do globo aqui vira "cinema de arte". No Cineforo, por exemplo, tem um cartaz enorme de Avassaladoras, o que indica que esse filme já foi exibido lá. Aqui o filme ganhou como título o de Devoradoras de hombres, ou algo assim, não me lembro direito.

É curioso que os mexicanos só puderam ver o Avassaladoras no Cineforo. Será que o público frequentador da rede Cinépolis não teria gostado de vê-lo? Ou será que ele realmente sempre vai preferir os "originais" americanos como o recente Loucura de amor em Las Vegas , por exemplo, aos "similares" latino-americanos, que tem muito mais haver com ele?