Estrearam hoje (sexta-feira) mais dois filmes que provavelmente ficarão muito pouco tempo em cartaz e que passarão sem ser notados. Um deles é Pamela (Dir: Rodolfo Galindo Ubierna, México, 2007), que tentarei ver, e o outro é Satanás (Dir: Andrés Baiz, México, 2006) que vi com a Thata no Festival do Rio 2007. Eu não achei esse filme só ruim (porque aí dependendo de sua ruindade ele até poderia ser bom), eu achei ele pavoroso. A sinopse que está no site da Cinépolis é quase tão ruim quanto o filme. Não explica nada e não cumpre a sua função de sinopse. Nem para avivar a minha memória, ela serviu.
Lembro que o Satanás do título é representado por um "pacato" professor de inglês. Pacato no sentido de que ninguém imaginava que esse homem maduro, solteirão e que ainda mora com a mãe rabugenta, seria capaz de cometer a série de crimes hediondos que cometeu. Parece que o filme diz que foi inspirado em fatos reais. Não sei que situações encenadas no filme provêm de fatos veridícos e que situaçõess são pura ficção. Só sei que tudo que está lá é o resultado de uma grande mão pesada e de uma falta de manejo fora do comum. A enorme frustração do protagonista, que não suporta a mãe, que não suporta os vizinhos, que não consegue agradar a sua linda aluna adolescente, que vive uma vida mediocre e estagnada, se transforma em atos de violência inexplicáveis e gratuitos. O filme não consegue resolver essa premissa de forma satisfatória em nenhum sentido: seja em termos visuais e formais, seja no nível do conteúdo e de sua inserção na narrativa. Tudo no fim parece tão vazio, aleatório e inconsistente como os atos do professor de inglês.
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sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Às vezes nao dá para seguir a disciplina
Ontem, assim que eu terminei de escrever a primeira versão de um ensaio que me encomendaram para um livro, fui direto ao Centro Magno com o objetivo de ver dois filmes. Um era o último filme dos irmãos Coen, que eu já queria ver há um tempão e que já estava há umas três semanas en cartaz por aqui. Preferi não arriscar: se ele saisse de cartaz hoje, só em DVD. Mantive o Quémese después de leerse dentro do meu plano especatorial. Mas aí, ainda estava faltando o segundo filme da noite. Não "segundo" em termos de ordem cronológica mas segundo em termos de ser o outro filme que não o dos Coen. Vi que tinha dois filmes mexicanos em cartaz: Nesio (Dir: Alan Coton, México, 2007) e Kada kien su karma (Dir: Leon Serment, México,2008). Pensei: bom, o outro filme que eu vou ver será um deles, mas qual?
Matutei: Kada kien con su karma só está em dois horários e com certeza já deve se pirulitar das salas de Guadalajara amanhã. Nesio estreou na sexta passada, então amanhã ele terá seus horários reduzidos mas não deve sair de cartaz. A lógica diria para eu escolher o Kada kien con su karma e deixar para ver o outro depois. Ou eu poderia tentar uma outra alternativa: descartar o Queime depois de ler e ver os dois mexicanos, já que eu botei para mim mesmo essa disciplina de tentar ver todos os filmes mexicanos que entram no circuito. Mas aí eu lembrei que eu já tinha visto o trailer do Kada kien con su karma e que tinha achado muito ruim. Tudo bem que eu até gosto de filme ruim mas aí já é demais. Chutei o balde. Escolhi o Nesio que tinha pelo menos uma sinopse mais interessante e fui vê-lo.
Hoje, o previsível acontece. Kada kien con su karma se pirulitou, Nesio e Coen permancem em cartaz.
Matutei: Kada kien con su karma só está em dois horários e com certeza já deve se pirulitar das salas de Guadalajara amanhã. Nesio estreou na sexta passada, então amanhã ele terá seus horários reduzidos mas não deve sair de cartaz. A lógica diria para eu escolher o Kada kien con su karma e deixar para ver o outro depois. Ou eu poderia tentar uma outra alternativa: descartar o Queime depois de ler e ver os dois mexicanos, já que eu botei para mim mesmo essa disciplina de tentar ver todos os filmes mexicanos que entram no circuito. Mas aí eu lembrei que eu já tinha visto o trailer do Kada kien con su karma e que tinha achado muito ruim. Tudo bem que eu até gosto de filme ruim mas aí já é demais. Chutei o balde. Escolhi o Nesio que tinha pelo menos uma sinopse mais interessante e fui vê-lo.
Hoje, o previsível acontece. Kada kien con su karma se pirulitou, Nesio e Coen permancem em cartaz.
Ainda na luta de Davi contra Golias
Ontem fui ver Nesio (Dir: Alan Coton, México, 2008), que estava em sua primeira semana de exibição ocupando três horários da sala 7 do Cinépolis do Centro Magno. Hoje, entrei na página dessa empresa exibidora pra ver as estréias da semana e vi que o filme já foi hoje para um único horário da sala 6. Já Navidad S.A (Dir: Fernando Rovzar, México, 2008), que também foi para a sua segunda semana, manteve os mesmos cinco horários do momento de sua estréia. Porque será? Porque esse filme mexicano natalino estreou na semana passada em TODOS os cinemas da rede Cinépolis de Guadalajara preenchendo em media 6 horários em cada um deles e esse Nesio só estreou em três cinemas e em três horários em cada um?
Confesso que quando eu vi o trailer de Navidad S.A há alguns meses atrás eu demorei um pouco para perceber que se tratava de um filme mexicano. Primeiro pela imagem do filme: a qualidade da imagem era de primeira. Depois pela temática: um filme de natal cujo enredo e conflito é igual ao de milhões de filmes natalinos americanos. Algo em torno da idéia de que "o espírito de amor, solidariedade e respeito ao próximo emanados por essa celebração está se perdendo e é preciso recuperá-lo". Depois os efeitos especiais. Como todo filme de natal é preciso ter magia: trenós voando, duendes e peripécias fantásticas. E não é que o filme cumpria com todos esses requisitos? Também nao reconheci de primeira que atrás da roupa e da barba de Papai Noel estava Pedro Armendáris Jr. Quando ele proferiu a primeira a palavra, pensei "claro, esse filme tem que estar dublado, afinal ele é dirigido às crianças." Mas, segundos depois desse pensamento caiu a ficha de que o filme não parecia ser dublado. Começei a estranhar.
Aí acho que o narrador apresentou : "Pedro Amendáris no papel de Papai Noel" ou algo assim. Minha primeira reação: fiquei curioso em conferir o resultado de uma ultra mega super produção mexicana contemporânea feita especialmente para o natal de 2008 com enredo idêntico aos filmes natalinos que passavam na Sessão da Tarde ao longo da minha infância. Pela pimeira vez vou ver um filme mexicano recente a la Sessão da Tarde, e para completar, em um cinema!
Certos esquemas e fórmulas parecem nunca mudar, ou melhor, mudam só na embalagem e em alguns códigos condizentes com a sua época. Mas, a essência permanece.
Isso não é de todo ruim. Se as fórmulas dos filmes que eu via na Sessão da Tarde em meados dos anos 80 (que eram em sua maioria filmes produzidos nas duas décadas anteriores) se repetem hoje em dia satisfazendo o gosto do público infantil é porque há nelas algo de atemporal, como nos clássicos contos infantis. Porém, sempre haverá um jeito de ampliar, de ascrecentar algo de criatividade e de trazer novos elementos para as velhas fórmulas. Nao se deve confundir a atemporalidade de determinados valores e mensagens destinadas ao público de calças curtas com conformismo estético e repetição automática. Esse público em especial, nao tem nada de passivo e é extramamente exigente, às vezes, até mais do que os próprios pais.
Eu ainda nao vi Navidad S.A, por tanto só posso falar da impressao que tive ao assistir o trailer. Talvez dentro de sua pirotecnia e de sua pouco original premissa narrativa ele possa propor algo interessante. Quem sabe? É possivel. Oportunidade para ver o filme com certeza eu vou ter, já que ele ficará em cartaz em todos esses cinemas pelo menos até o natal, ou seja, durante um mês. Nada contra que ele fique tanto tempo em cartaz, mas só acho que os filmes que não contam com uma major por trás em sua produção e distribuição também deveriam ter uma maior oportunidade. Navidad SA é co-produzido e distribuido pela Warner Bros. assim como High school musical: El desafio foi co-produzido e distribuido pela Disney. A versão mexicana (feita especialmente para o público juvenil mexicano, com atores locais) da série de filmes High school musical , também preencheu grande parte do circuito exibidor de Guadalajara. Um outro filme comercial mexicano, também uma super produção, como Arráncame a la vida, teve a falta de sorte de ser lançado na mesma época do High school mexicano. Se ele tivesse sido lançado em uma outra ocasiao certamente teria ocupado um número um pouco maior de horários. Mas, um filme nacional só tem chance quando tem o aval e a permissão de Hollywood.
Confesso que quando eu vi o trailer de Navidad S.A há alguns meses atrás eu demorei um pouco para perceber que se tratava de um filme mexicano. Primeiro pela imagem do filme: a qualidade da imagem era de primeira. Depois pela temática: um filme de natal cujo enredo e conflito é igual ao de milhões de filmes natalinos americanos. Algo em torno da idéia de que "o espírito de amor, solidariedade e respeito ao próximo emanados por essa celebração está se perdendo e é preciso recuperá-lo". Depois os efeitos especiais. Como todo filme de natal é preciso ter magia: trenós voando, duendes e peripécias fantásticas. E não é que o filme cumpria com todos esses requisitos? Também nao reconheci de primeira que atrás da roupa e da barba de Papai Noel estava Pedro Armendáris Jr. Quando ele proferiu a primeira a palavra, pensei "claro, esse filme tem que estar dublado, afinal ele é dirigido às crianças." Mas, segundos depois desse pensamento caiu a ficha de que o filme não parecia ser dublado. Começei a estranhar.
Aí acho que o narrador apresentou : "Pedro Amendáris no papel de Papai Noel" ou algo assim. Minha primeira reação: fiquei curioso em conferir o resultado de uma ultra mega super produção mexicana contemporânea feita especialmente para o natal de 2008 com enredo idêntico aos filmes natalinos que passavam na Sessão da Tarde ao longo da minha infância. Pela pimeira vez vou ver um filme mexicano recente a la Sessão da Tarde, e para completar, em um cinema!
Certos esquemas e fórmulas parecem nunca mudar, ou melhor, mudam só na embalagem e em alguns códigos condizentes com a sua época. Mas, a essência permanece.
Isso não é de todo ruim. Se as fórmulas dos filmes que eu via na Sessão da Tarde em meados dos anos 80 (que eram em sua maioria filmes produzidos nas duas décadas anteriores) se repetem hoje em dia satisfazendo o gosto do público infantil é porque há nelas algo de atemporal, como nos clássicos contos infantis. Porém, sempre haverá um jeito de ampliar, de ascrecentar algo de criatividade e de trazer novos elementos para as velhas fórmulas. Nao se deve confundir a atemporalidade de determinados valores e mensagens destinadas ao público de calças curtas com conformismo estético e repetição automática. Esse público em especial, nao tem nada de passivo e é extramamente exigente, às vezes, até mais do que os próprios pais.
Eu ainda nao vi Navidad S.A, por tanto só posso falar da impressao que tive ao assistir o trailer. Talvez dentro de sua pirotecnia e de sua pouco original premissa narrativa ele possa propor algo interessante. Quem sabe? É possivel. Oportunidade para ver o filme com certeza eu vou ter, já que ele ficará em cartaz em todos esses cinemas pelo menos até o natal, ou seja, durante um mês. Nada contra que ele fique tanto tempo em cartaz, mas só acho que os filmes que não contam com uma major por trás em sua produção e distribuição também deveriam ter uma maior oportunidade. Navidad SA é co-produzido e distribuido pela Warner Bros. assim como High school musical: El desafio foi co-produzido e distribuido pela Disney. A versão mexicana (feita especialmente para o público juvenil mexicano, com atores locais) da série de filmes High school musical , também preencheu grande parte do circuito exibidor de Guadalajara. Um outro filme comercial mexicano, também uma super produção, como Arráncame a la vida, teve a falta de sorte de ser lançado na mesma época do High school mexicano. Se ele tivesse sido lançado em uma outra ocasiao certamente teria ocupado um número um pouco maior de horários. Mas, um filme nacional só tem chance quando tem o aval e a permissão de Hollywood.
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Cinemas nacionais contra Hollywood
O título desse post é uma paródia ao título de um livro com o mesmo nome escrito por um crítico francês "radical", de "extrema esquerda", super "politizado" chamado Guy nao sei das quantas. Agora me fugiu o sobrenome do cara, daqui a pouco eu lembro. Eu sei que não se trata do Guy Malpassado, famoso escritor, nem do Guy Nasbordas, famoso cineasta experimental e teórico, autor de A sociedade do espétaculo e líder da Intentona Situacionista.
O tal crítico se chama Guy nao sei das quantas, é o que importa no momento. O livro dele é super datado, ultrapassado e a sua leitura nos dias de hoje só vale a pena pelo seu caráter documental, de registro de uma época e pela curiosidade de se travar contato com um pensamento e um discurso que já ficou para trás. Mas, esse livro me veio à mente no dia de hoje pela dificuldade que eu estou enfrentando em conseguir ver os filmes mexicanos antes que eles saiam de cartaz. A mesma dificultade que eu tinha no Brasil em conseguir acompanhar todos os filmes brasileiros que entravam em cartaz, eu estou tendo aqui em relação aos mexicanos.
Se no Brasil, os filmes brasileiros são jogados no mercado de maneira extremamente negligente, aqui acontece o mesmo. Essa é a trajetória tipíca dos filmes nacionais daqui: um filme mexicano entra em cartaz, na semana seguinte ele já está ocupando apenas uma sala e em um único horário, na outra semana ele já saiu de cartaz. Foi assim que eu perdi Las vidas de Lelia (Dir: Antonio Chuvarrías, Espanha, México, 2006). Quando eu vi o filme já estava em uma única sala, em um único horário e em um cinema longe pra caralho. Assim não dá, aí já é muito sacrifício para um cinéfilo estrangeiro curioso e interessado em acompanhar a produção mexicana contemporânea. Com La sangre iluminada (Dir: Iván Ávila Dueñas,México,2007) e com Mejor que Gabriela no se muera (Dir: Sergio Umansky, México,2007) foi ainda pior. Tinha me programado para ver esses filmes mas, por estar enrolado com os trabalhos do mestrado e outros projetos, tive que ficar uns dois finais de semana tracanfiado em casa e quando finalmente estive livre para vê-los: já era, eles já tinham se pirulitado das telas da cidade.
Se essa dificuldade rola comigo, imagine com o público majoritário, com o público comum. A maioria nem sabe da existência desses filmes. Não há divulgaçao, não há nenhum incentivo para se ver esses filmes. Ou seja, os filmes mexicanos nao dialogam com a sociedade mexicana, nao provocam discussões, nao geram debates. Exatamente o mesmo, em gênero, número e grau, ocorre com o cinema brasileiro. Não se sabe para quem são feitos os filmes. Os filmes são autistas, falam sozinhos, vivem isolados em seu próprio mundo. Não possuem contato com o público, a crítica os ignora, os pensadores de outras aréas estão pensando e escrevendo sobre outros assuntos, etc...
Fazer um filme de gênero, com "linguagem acessível" ou um filme "de arte", "autoral" nas cinematografias periféricas dá no mesmo, não faz diferença nenhuma. Os dois "tipos" de filmes são colocados no mercado na mesma forma. O filme mais comercial ou o "similar nacional" do cinema Hollywoodiano não tem a menor chance. Não adianta ter um orçamento de milhões, apresentar todos os atores da novela da moda e se filiar a um gênero codificado. Ele não terá a possibilidade ou a oportunidade de ficar semanas em cartaz em todos os horários, para assim estar mais disponível ao público. É curioso o fato de que exibidores sempre esperam (isso é o que parece) que qualquer filme nacional, seja no Brasil, na Argentina ou no México lotem na primera semana todas as salas. E como isso nunca acontece, na semana seguinte lá estão eles em apenas um horário. Não é possível que algum filme sem um mínimo de publicidade lote na primeira semana. Agora para os filmes americanos, os pinchi exibidores não tem essa impaciência toda não. Qualquer filme americano super aguardado que na primeira semana é um tremendo fracasso, uma semana depois não estará no purgatório da única sala - único horário. Isso nunca acontece. E olha que eu já pude constatar tanto no Brasil quanto aqui essa situação.
Hoje fui ver Todos los días son tuyos (Dir. José Luis Gutiérrez Arias, México, 2007) que só estava com uma sessão às 4 horas da tarde e Mezcal (Dir: Ignacio Ortiz, México, 2004) que só estava com uma sessão às 7 de noite. O primeiro não esconde em nenhum momento o seu desejo de travar contato com o grande público. Super calcado no gênero policial, recheado com todas as suas iconografias, símbolos e clichês, com roteiro milimetricamente pensado, cheio de viradas, climax e respiros nos momentos certos, contava com apenas três pessoas na sala ( eu incluido). O segundo, que não por acaso é de 2004 e só entrou em cartaz nesse ano, "exige" mais do espectador. Trata-se de um filme, se é para catalogar, mais "de arte", com uma estética e narrativa distanciada do cinemão. Na sala tinham uns 40 espectadores.
Pode-se argumentar que o segundo estava em um horário mais acessível que o primeiro. Afinal, muita gente ainda estuda ou trabalha às 4 da tarde e às 7 da noite não. Tudo bem, mas eu acho que não é só isso não. O fato é que os filmes nacionais, sem exceção, estao no mesmo limbo.
E é preciso tirá-los de lá.
O tal crítico se chama Guy nao sei das quantas, é o que importa no momento. O livro dele é super datado, ultrapassado e a sua leitura nos dias de hoje só vale a pena pelo seu caráter documental, de registro de uma época e pela curiosidade de se travar contato com um pensamento e um discurso que já ficou para trás. Mas, esse livro me veio à mente no dia de hoje pela dificuldade que eu estou enfrentando em conseguir ver os filmes mexicanos antes que eles saiam de cartaz. A mesma dificultade que eu tinha no Brasil em conseguir acompanhar todos os filmes brasileiros que entravam em cartaz, eu estou tendo aqui em relação aos mexicanos.
Se no Brasil, os filmes brasileiros são jogados no mercado de maneira extremamente negligente, aqui acontece o mesmo. Essa é a trajetória tipíca dos filmes nacionais daqui: um filme mexicano entra em cartaz, na semana seguinte ele já está ocupando apenas uma sala e em um único horário, na outra semana ele já saiu de cartaz. Foi assim que eu perdi Las vidas de Lelia (Dir: Antonio Chuvarrías, Espanha, México, 2006). Quando eu vi o filme já estava em uma única sala, em um único horário e em um cinema longe pra caralho. Assim não dá, aí já é muito sacrifício para um cinéfilo estrangeiro curioso e interessado em acompanhar a produção mexicana contemporânea. Com La sangre iluminada (Dir: Iván Ávila Dueñas,México,2007) e com Mejor que Gabriela no se muera (Dir: Sergio Umansky, México,2007) foi ainda pior. Tinha me programado para ver esses filmes mas, por estar enrolado com os trabalhos do mestrado e outros projetos, tive que ficar uns dois finais de semana tracanfiado em casa e quando finalmente estive livre para vê-los: já era, eles já tinham se pirulitado das telas da cidade.
Se essa dificuldade rola comigo, imagine com o público majoritário, com o público comum. A maioria nem sabe da existência desses filmes. Não há divulgaçao, não há nenhum incentivo para se ver esses filmes. Ou seja, os filmes mexicanos nao dialogam com a sociedade mexicana, nao provocam discussões, nao geram debates. Exatamente o mesmo, em gênero, número e grau, ocorre com o cinema brasileiro. Não se sabe para quem são feitos os filmes. Os filmes são autistas, falam sozinhos, vivem isolados em seu próprio mundo. Não possuem contato com o público, a crítica os ignora, os pensadores de outras aréas estão pensando e escrevendo sobre outros assuntos, etc...
Fazer um filme de gênero, com "linguagem acessível" ou um filme "de arte", "autoral" nas cinematografias periféricas dá no mesmo, não faz diferença nenhuma. Os dois "tipos" de filmes são colocados no mercado na mesma forma. O filme mais comercial ou o "similar nacional" do cinema Hollywoodiano não tem a menor chance. Não adianta ter um orçamento de milhões, apresentar todos os atores da novela da moda e se filiar a um gênero codificado. Ele não terá a possibilidade ou a oportunidade de ficar semanas em cartaz em todos os horários, para assim estar mais disponível ao público. É curioso o fato de que exibidores sempre esperam (isso é o que parece) que qualquer filme nacional, seja no Brasil, na Argentina ou no México lotem na primera semana todas as salas. E como isso nunca acontece, na semana seguinte lá estão eles em apenas um horário. Não é possível que algum filme sem um mínimo de publicidade lote na primeira semana. Agora para os filmes americanos, os pinchi exibidores não tem essa impaciência toda não. Qualquer filme americano super aguardado que na primeira semana é um tremendo fracasso, uma semana depois não estará no purgatório da única sala - único horário. Isso nunca acontece. E olha que eu já pude constatar tanto no Brasil quanto aqui essa situação.
Hoje fui ver Todos los días son tuyos (Dir. José Luis Gutiérrez Arias, México, 2007) que só estava com uma sessão às 4 horas da tarde e Mezcal (Dir: Ignacio Ortiz, México, 2004) que só estava com uma sessão às 7 de noite. O primeiro não esconde em nenhum momento o seu desejo de travar contato com o grande público. Super calcado no gênero policial, recheado com todas as suas iconografias, símbolos e clichês, com roteiro milimetricamente pensado, cheio de viradas, climax e respiros nos momentos certos, contava com apenas três pessoas na sala ( eu incluido). O segundo, que não por acaso é de 2004 e só entrou em cartaz nesse ano, "exige" mais do espectador. Trata-se de um filme, se é para catalogar, mais "de arte", com uma estética e narrativa distanciada do cinemão. Na sala tinham uns 40 espectadores.
Pode-se argumentar que o segundo estava em um horário mais acessível que o primeiro. Afinal, muita gente ainda estuda ou trabalha às 4 da tarde e às 7 da noite não. Tudo bem, mas eu acho que não é só isso não. O fato é que os filmes nacionais, sem exceção, estao no mesmo limbo.
E é preciso tirá-los de lá.
sábado, 13 de setembro de 2008
Outros filmes mexicanos em cartaz
Parece que os filmes mexicanos estavam na gaveta esperando as férias de verao acabar. Depois de um verão em que praticamente nenhum filme mexicano entrou em cartaz para dar espaço total aos filmes americanos feitos especilamente para essa data, eles agora estão começando a aparecer. Só no Cinépolis perto da minha casa estão quatro filmes: Amor letra por letra, a animaçãoVeritas, el príncipe de la verdad (Dir: Arturo Ruíz-Esparza, México / Eua, 2008) , o musical adolescente High School Musical, el desafío (Dir: Eduardo Ripari, México, 2008) e a super produção histórica Arráncame la vida (Dir: Roberto Sneider, México, 2008). Desde que eu estou aqui no México essa é a primeira vez que eu vejo isso acontecer. No máximo eu tinha visto dois filmes mexicanos por cinema.
E ainda hoje, na sessão de Amor letra por letra eu vi o trailer de um filme mexicano que deve entrar em cartaz na semana que vem. O título do filme era algo como Tomara que Gabriela não morra, e era ambientado no universo das telenovelas. E ao sair da sala depois do filme ainda vi o cartaz de mais outros dois filmes mexicanos que vão estrear brevemente. E o Gabriel, especialista em monstros gigantes, me disse que ainda em setembro vão entrar no circuito comercial dois filmes mexicanos fantásticos. Fantástico o gênero, não o adjetivo.
E ainda hoje, na sessão de Amor letra por letra eu vi o trailer de um filme mexicano que deve entrar em cartaz na semana que vem. O título do filme era algo como Tomara que Gabriela não morra, e era ambientado no universo das telenovelas. E ao sair da sala depois do filme ainda vi o cartaz de mais outros dois filmes mexicanos que vão estrear brevemente. E o Gabriel, especialista em monstros gigantes, me disse que ainda em setembro vão entrar no circuito comercial dois filmes mexicanos fantásticos. Fantástico o gênero, não o adjetivo.
Amor letra por letra

Acabo de ver no Cinéplois Tolsá , que fica bem pertinho da minha nova casa (pois é, me mudei pela quarta vez, só que agora para a rua paralela da minha casa anterior) a comédia romântica Amor letra por letra (Dir: Luis Eduardo Reyes, México / Eua, 2008).
Essa é a sinopse do filme:
"Tras su despido, las amigas Hanna (Silvia Navarro) y Amanda, deciden depositar el dinero de su liquidación a una sola cuenta. Hanna, quien tiene que realizar dicha operación, también se ha quedado al cuidado de Gaspar, el hijo de Amanda; pero, debido una distracción, el dinero es depositado a una cuenta equivocada. El dinero que también estaba destinado para su boda, con un joven (Plutarco Haza) que al parecer no la quiere demasiado, ha terminado en la cuenta de Edgar (Alan Estrada), un aspirante a escritor, quien resulta tener el mismo problema que ella: la infidelidad. Hanna empieza a cazarlo para obtener la devolución de su dinero en una trama que se enreda cada vez más".
O filme tem um tema que é reiterado a cada momento, principalmente do seu inicio ao final da segunda metade: a necesidade dos filhos se independizarem de seus pais. Edgard, um escritor frustrado, é um homem de uns 35 anos que ainda depende financeramente de seus progenitores e tem que aguentar o pai que a toda hora joga isso na sua cara. O namorado infiel de Hanna é um sujeito ainda mais velho que Edgard e também vive sob a guarda dos pais, que não sabem como se livrar dessa cruz. O colega de trabalho de Hanna, outro "jovem adulto", também nem pensa em sair do abrigo aconchegante oferecido pelos seus velhos. A namorada adúltera de Edgard, uma artista plástica moderninha, é mais uma que se adere à lista de filhos "acomodados".
Essa premissa, frágil e mal construida, ora serve de pretexto para ações cômicas (os pais que simulam uma separação para forçar o filho a sair de casa), ora para justificar o andamento da trama (Edgar só resolve retirar o dinheiro que foi posto acidentalmente na sua conta porque ele poderá permitir a sua indepedência). Esse quiprocó, o da busca de Hanna pela recuperação de seu dinheiro, toma conta do filme e é o que vai impulsionar o seu ritmo daqui pra frente. O envolvimento amoroso da protogonista com Edgard é débil e pouco convincente, ainda mais inverossímel é o seu noivado com esse cara feio que a trai com Amanda, a sua melhor amiga.
A maioria dos elementos que parecem não se encaixar, nos parecem indicar que surgiram mais da direção de atores e da pouca depuração conferida aos personagens mais importantes do que da elaboração do roteiro em si, que a pesar de tudo é bastante funcional e competente para o que se propõe. O que de imediato aparenta ser a coisa mais interessante do filme é a quebra irônica do final feliz, que de maneira sutil e não esperada pela condução convencional da narrativa, nos oferece algumas pinceladas matizadas em um filme tão preto ou branco.
Essa é a sinopse do filme:
"Tras su despido, las amigas Hanna (Silvia Navarro) y Amanda, deciden depositar el dinero de su liquidación a una sola cuenta. Hanna, quien tiene que realizar dicha operación, también se ha quedado al cuidado de Gaspar, el hijo de Amanda; pero, debido una distracción, el dinero es depositado a una cuenta equivocada. El dinero que también estaba destinado para su boda, con un joven (Plutarco Haza) que al parecer no la quiere demasiado, ha terminado en la cuenta de Edgar (Alan Estrada), un aspirante a escritor, quien resulta tener el mismo problema que ella: la infidelidad. Hanna empieza a cazarlo para obtener la devolución de su dinero en una trama que se enreda cada vez más".
O filme tem um tema que é reiterado a cada momento, principalmente do seu inicio ao final da segunda metade: a necesidade dos filhos se independizarem de seus pais. Edgard, um escritor frustrado, é um homem de uns 35 anos que ainda depende financeramente de seus progenitores e tem que aguentar o pai que a toda hora joga isso na sua cara. O namorado infiel de Hanna é um sujeito ainda mais velho que Edgard e também vive sob a guarda dos pais, que não sabem como se livrar dessa cruz. O colega de trabalho de Hanna, outro "jovem adulto", também nem pensa em sair do abrigo aconchegante oferecido pelos seus velhos. A namorada adúltera de Edgard, uma artista plástica moderninha, é mais uma que se adere à lista de filhos "acomodados".
Essa premissa, frágil e mal construida, ora serve de pretexto para ações cômicas (os pais que simulam uma separação para forçar o filho a sair de casa), ora para justificar o andamento da trama (Edgar só resolve retirar o dinheiro que foi posto acidentalmente na sua conta porque ele poderá permitir a sua indepedência). Esse quiprocó, o da busca de Hanna pela recuperação de seu dinheiro, toma conta do filme e é o que vai impulsionar o seu ritmo daqui pra frente. O envolvimento amoroso da protogonista com Edgard é débil e pouco convincente, ainda mais inverossímel é o seu noivado com esse cara feio que a trai com Amanda, a sua melhor amiga.
A maioria dos elementos que parecem não se encaixar, nos parecem indicar que surgiram mais da direção de atores e da pouca depuração conferida aos personagens mais importantes do que da elaboração do roteiro em si, que a pesar de tudo é bastante funcional e competente para o que se propõe. O que de imediato aparenta ser a coisa mais interessante do filme é a quebra irônica do final feliz, que de maneira sutil e não esperada pela condução convencional da narrativa, nos oferece algumas pinceladas matizadas em um filme tão preto ou branco.
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